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Archive for the ‘Conversa de botas batidas’ Category

Estamos no ônibus, um ao lado do outro, conversando. Uma conversa tola. As palavras envergonhadas, os olhares discretos… A luz do ônibus se apaga. O assunto acaba. Fecho os olhos acreditando que conseguiria dormir. Mas era impossível. Ele segura minha mão e entrelaça seus dedos aos meus. Dormir assim, ao seu lado de mãos dadas, seria perfeito. Mas meu coração acelerado não me deixa dormir.

Abro os olhos. Ele está virado para frente e as luzes dos postes lá fora iluminam sutilmente seu rosto. Por um instante me perco em pensamentos e sentimentos. Ele abre seus olhos e eu fecho os meus repentinamente. O nervosismo toma conta de mim. Minha mente surta. O chão foge dos meus pés, e o ar dos meus pulmões.

Ele leva minha mão até seus lábios e a beija. Suspiro. Abro meus olhos surpresa pelo gesto. Seu rosto se aproxima lentamente do meu, seus lábios colam nos meus e assim foi nosso primeiro beijo.

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Um dia você me perguntou por que me assusto com tanta facilidade. Disse que parece até que tenho medo de tudo, medo do mundo. Na hora não respondi, sorri discretamente e enrubescida virei o rosto para disfarçar, mudar de assunto.

Não tenho medo do mundo há algum tempo. Saí por aí e revirei o mundo em busca do meu próprio mundo. O enfrentei, o conquistei e agora não o temo mais. Mas você estava certo, é medo que sinto. Medo de ti. Tenho medo de ti porque você me atinge.

Há muito tempo perdi a fé no romantismo utópico. Todas essas crenças sobre o tão famoso “felizes para sempre” se esvaíram junto com rios de lágrimas. Perdi também a fé nas pessoas. As pessoas mentem, fingem, traem. E nem sempre é possível ver a mentira nos olhos. Muitas vezes nós mesmo que nos cegamos, uma cegueira colorida e bonita, uma cegueira melhor que a própria realidade.

Depois de tanto lamentar, talvez por muito chorar, não sei. Mas tudo passou. A dor, a mágoa, o amor, os suspiros, as cores, os cheiros, os sabores, tudo se foi. A vida se tornou sem graça. “Eu tinha algum amor, eu era bem melhor, mas tudo deu um nó e a vida se perdeu.” E o pouco que sobrou deve ter ficado escondido, porque tudo que sentia era um terrível vazio. Esse vazio era tão intenso e insuportável que um cigarro nunca era suficiente, um maço nunca era suficiente… “mais uma taça”… “mais um copo”… “mais uma garrafa”… “mais uma hora”… “mais uma hora”… “mais um amigo”… “mais um beijo”… “mais uma semana”… Mais nada. Porque eu pararia se parar significava encarar o vazio?

Até que um dia eu acordei e estava diferente. Não foi nada mágico, não foi um grande amor ou qualquer ilusão parecida, nada disso. Simplesmente era eu.  E havia algo em mim que não sentia desde a infância. Eu estava confiante e segura, como se eu pudesse realizar todos os meus sonhos. E foi nisso que me foquei por todo esse tempo. E eu estava bem.

Acreditava que não iria mais me apaixonar. Como se esse sentimento não coubesse mais em mim. Até que você chegou, segurou na minha mão e me fez suspirar. O menino bonito. “Não pude evitar, tirou meu ar, fiquei sem chão.”

Um dia você me perguntou por que sinto tanto medo e hoje te respondo. Sinto medo porque gosto de ti. Gosto de ti de um modo que foge ao meu controle. E sinto medo de tudo que foge ao meu controle.

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Não havia nenhum conhecido no prédio, além do vizinho chato e mal educado que nunca se apresentou. Não havia ninguém conhecido na rua, além, é claro, dele, mas acho que ele não quer falar comigo. Na realidade não há quase nenhum conhecido nessa imensa ilha. Isso causa uma certa solidão ocasional.

Em uma dessas noites solitárias fiquei sentada na varanda do apartamento. O rádio ligado na estação local parecia ler meu coração. Tocava as músicas certas no momento e na ordem certa. Fui aos poucos ficando sentimental. A flor da pele.

Um cigarro atrás do outro para ocupar as mãos que já estavam casandas de tanto reescrever a mesma carta. Uma carta que não entregarei. Ouço “Metade” de Oswaldo Montenegro. Tudo o que pensei em escrever na carta ele disse na música, até os detalhes mais implícitos foram expostos. “Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço.” (…) “Que o medo da solidão se afaste e que o convivio comigo mesmo seja ao menos suportável”. Mesmo assim não entregarei a carta. Falta coragem. E a falta é tão grande que sobra medo.

Me perco em pensamentos, sentimentos e sons. Minha mente voa, meu coração chora e meus olhos se perdem. Me pego observando a rua, as casas, as sacadas dos outros prédios. E é nesse momento que ele surge de uma fresta aberta antecipada e propositalmente para ele. Um felino com olhar triste, pelos negros e brilhantes. Ele mia, e seu miado pode facilmente ser confundido com um choro. Pelo tom de tristeza talvez.

Da mesma forma que eu, ele está só. Da mesma forma que eu ele espera e nessa espera, chora. Um de cada lado da rua. Cada um com sua dor, cada um com sua falta e sua saudade.

Não há motivo para chorar gatinho.

Não há motivo para chorar menina.

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O Adeus

– Agora eu vou.

– Adeus.

– Adeus.

Alice foi embora. Olhou para o apartamento já vazio. Olhou para Pedro. Virou e com os olhos lagrimejando, fechou a porta e partiu. Seu coração doía. Suas pernas queriam voltar. Seus braços queriam envolvê-lo num último e já saudoso abraço. A certeza de nunca mais encontrá-lo ao chegar trazia um estranho frio no estômago.

Pedro e Alice não tiveram um final feliz. Eles não passaram o resto da vida juntos. Eles não viajaram pelo mundo. Não escreveram um livro. Eles não se casaram e não tiveram a menina que tanto planejaram.

Havia mil motivos para ela não estar lá. Havia mil motivos pra ela não se apaixonar. Mas quem controla o coração? Quem? Alice não.

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O brinde

Ricardo e Isabela estavam no barzinho perto de suas casas. Era domingo á noite e o fim de semana havia sido movimentado demais para os dois. Ambos tinha seus amores, seus estranhos gostos e opiniões, mas combinavam quando o assunto era bebidas, cigarros e paixões. E gostavam do simples fato de terem um ao outro para conversas longas e tolas sobre qualquer coisa.

Ela pediu um chope de vinho para esquentar o corpo e ele um de trigo porque era de costume. O mundo parecia ter estacionado naquele momento e nada parecia poder acontecer de mais naquele dia.

–        Precisamos brindar. – disse ela.

–        Mas brindar ao quê?

Eles olharam vagarosamente ao seu redor. Nada parecia chamar a atenção a ponto de merecer um brinde.

–        Aos nossos vícios! – exclamou Isabela.

–        Booooaaaaa… – disse Ricardo com um leve sorriso de satisfação no rosto.

Acenderam seus cigarros e compartilhando quase todos os seus vícios ergueram suas tupilas de chope.

–        Um brinde aos nossos vícios. Que eles sempre nos mantenham felizes.

Olharam um para o outro e entenderam tudo o que aconteceria a partir daí.

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